Como criar ou ampliar uma base de operações de recebíveis de cartões de crédito

No atual cenário de crise econômica, que culminou na recessão que nos assola já há alguns trimestres, as empresas têm cada vez mais dificuldades em conseguir crédito para manter seus níveis de caixa. Isso ocorre tanto pela escassez das linhas de créditos tradicionais, quanto pelo encarecimento das linhas disponíveis. O problema ainda é mais sério para empresas de pequeno e médio porte, que possuem menor poder de negociação com os bancos e operações mais modestas em volume financeiro e com menos garantias a oferecer na tomada do crédito.

É nesse cenário inóspito que se desenvolvem as modalidades de crédito lastreadas em recebíveis, conhecidas também como operações de fluxo de caixa. Tradicionalmente, uma empresa tem dificuldades de caixa por vender seus produtos e serviços a prazo e/ou parcelados, e nem sempre conseguem as mesmas condições com fornecedores, especialmente no que tange despesas fixas (pessoal, custos de instalação, tributos, entre outras). Convencionalmente, as empresas recorrem a operações clássicas de antecipação, como o desconto de duplicatas ou cheques, a venda de recebíveis, a antecipação de contratos, e mais recentemente, antecipação de recebíveis de cartão de crédito. É sobre essa modalidade que trataremos em especial neste artigo.

A antecipação de recebíveis de cartões é uma operação financeira, por meio da qual as empresas, especialmente as do setor de comércio, levam até seu banco de relacionamento a agenda de recebimento de vendas feitas por cartão. Por ter seu pagamento garantido pelas processadoras de cartão (nesse mercado chamadas de adquirentes ou credenciadoras), esses recebíveis têm alta liquidez (regularmente em torno de 98% a 99%) e lastreamento confiável pelas próprias adquirentes. A ilustração a seguir mostra o funcionamento dessa operação:

1

2

Funciona assim: um lojista contrata uma processadora e passa a aceitar vendas a cartão. Daí procura seu banco de relacionamento e abre uma conta corrente para que a processadora repasse os créditos, mas esse repasse só é feito cerca de 30 dias depois da venda. Logo, o banco oferece ao lojista, seu cliente, a antecipação desses créditos, que são lastreados e garantidos pelo pagamento que a credenciadora fará a cada vencimento. Diferente de outras modalidades de antecipação de recebíveis, onde o pagamento dos créditos é pulverizado (realizado por vários sacados, que são os devedores dos recebíveis), a vantagem nesse caso é que o pagamento é centralizado e tem liquidez garantida e total, já que quem faz as vezes do sacado é a processadora de cartões (credenciadora).

A sistematização dessa operação na instituição financeira passa por estabelecer um canal de transação eletrônica junto às credenciadoras (fluxo bilateral) ou junto à CIP – Câmara Interbancária de Pagamentos (fluxo centralizado). Em ambos, a IF precisa ter meios de cadastrar os clientes associando-os às contas correntes de cartões, conforme explicado acima, e depois submeter os dados cadastrais e financeiros para a outra parte (credenciadora parceira ou CIP, conforme o fluxo). Após submeter esses dados e obter a confirmação de recebimento pela contraparte, a IF passa a receber diariamente a agenda de pagamentos, que fornece os valores a receber pelo lojista em cada data de vencimento. A partir dessa informação, é possível realizar os pagamentos diariamente com base nos repasses da contraparte, ou transformar essa agenda de recebimentos em operações de crédito antecipado, que é o grande benefício de todo esse processo para a IF.

Atualmente, o fluxo centralizado tem sido largamente adotado pelo mercado, tanto por clientes entrantes quanto por IFs que estão migrando de plataforma, pelo fato de unificar layouts (no fluxo bilateral, cada credenciadora tem um book de layouts), e de ser controlado e autorizado por uma entidade financeira, que é a CIP. Os fluxos de recebíveis de cartões trafegam pelo SCG (Sistema de Controle de Garantias), câmara da CIP criada exclusivamente para ser a clearing desse mercado, abarcando instituições financeiras, credenciadoras e bandeiras de concessão de crédito. A criação dessa clearing trouxe ainda mais confiabilidade a esse tipo de recebíveis, tornando a operação cada vez mais atrativa para os players desse segmento.

Conforme se pode perceber, a operacionalização deste modelo de negócios, embora simples em termos funcionais, requer o apoio de uma ferramenta sistêmica que a apoie. É importante que a IF avalie um ferramental robusto, que esteja em conformidade com a CIP e com todas as atuais credenciadoras de mercado, para que consiga implementar qualquer que seja o fluxo de trabalho escolhido e tenha tranquilidade na prospecção comercial da antecipação. Resolvida a parte técnica e funcional, certamente a IF terá diferencial competitivo notório para ir ao mercado oferecendo à sua base de clientes o novo modelo de antecipação, apoiando-os a melhorar seu fluxo de caixa e criando uma carteira de operações segura e com alta liquidez.

Por Carlos André Ribeiro, Gerente de Operações.

2017-02-09T14:23:41+00:00agosto 2016|Tags: |